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Head-to-Head da Mercedes: Hamilton em desvantagem com apenas 38,51% dos pontos

patricia barbosa
Escritor:
Patrícia Barbosa
Publicado em:
20/06/2022
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Antes do início da temporada de Fórmula 1 de 2022, Lewis Hamilton era dado como favorito à conquista do campeonato de pilotos. O sucesso continuado desde 2014, aliado à expetativa de que a Mercedes continuasse a desenvolver um carro competitivo, justificavam tais prognósticos. Porém, neste momento, até ao seu colega de equipa, George Russell, são dadas melhores probabilidades de ser campeão.

Então como se justifica a diferença de pontos entre o jovem inglês e o seu colega heptacampeão, e o que se poderá esperar do resto da temporada na equipa Mercedes?

Então vejamos:

Os adeptos mais atentos já sabiam que os testes de pré-temporada da Mercedes eram pouco animadores. Quem acompanha Fórmula 1 sabe que os “dados” são baralhados antes do início de cada época.

Apesar de a era “híbrida” ter trazido uma estabilidade técnica entre temporadas como nunca se viu em 70 anos de Fórmula 1, dado que os projetos de carros do ano anterior influenciam o seguinte, há sempre margem para mudanças na competitividade entre equipas. Principalmente quando há uma mudança acentuada nos regulamentos técnicos, como sucedeu este ano, provocando um “reset” no projeto de carro de cada equipa.

A forma como a Mercedes falhou espetacularmente a expetativa de lutar pelo título, apesar das odds, mostra que as casas de apostas desportivas, no que toca à Fórmula 1, podem efetivamente ser “batidas” pelos clientes.

Lewis Hamilton: a caminho da reforma ou… da recuperação?

Quando um piloto com sete campeonatos conquistados começa a ser batido por um colega de equipa, inevitavelmente surgem rumores de desmotivação. O mesmo sucedeu com Michael Schumacher na sua passagem infrutífera pela Mercedes, entre 2010 e 2012.

À questão da idade juntam-se interrogações sobre a efetiva motivação de lutar por algo que não vitórias. Mas estará Hamilton realmente a “quebrar”, como notoriamente sucedeu com Michael Schumacher na sua última temporada em 2012?

Analisemos cada corrida em detalhe.

Bahrain

Resultados

Qualificação: 5º (+4 lugares à frente de Russell)

Corrida: 3º (+1 lugar à frente de Russell)

Campeonato

Hamilton: 3.º (15 pontos)

Russell: 4.º (12 pontos (-3))

Onde se esperava

O primeiro dia de treinos no Bahrain foi o primeiro momento de competição “a doer”. Ainda que se trate de treinos livres, é neste momento que as equipas se medem totalmente em igualdade de circunstâncias.

Embora a pista possa ser uma anomalia (outlier), como o foi no caso da McLaren, para a Mercedes ficou imediatamente óbvio que seria impossível lutar pelas vitórias. O efeito de “porpoising” que tem afetado duramente o monolugar W13 já estava claramente visível.

Hamilton qualificou-se e fez a corrida onde se esperava que fizesse, no 5º lugar enquanto líder da terceira melhor equipa. Chegou a andar à frente de Sergio Perez, mas teve de se contentar com o 5º lugar – transformado em 3º com o abandono de ambos os Red Bull.

Arábia Saudita

Resultados

Qualificação: 16º (-10 lugares atrás de Russell)

Corrida: 10º (-5 lugares atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 3º (22 pontos)

Hamilton: 4º (16 pontos (-6))

A chocante qualificação

Hamilton terminou a primeira sessão de treinos livres na Arábia Saudita na 6ª posição, atrás da Ferrari, Red Bull e de Alonso. Porém, de acordo com o site Racefans, a Mercedes arriscou nas afinações (set-up) do carro do heptacampeão para a qualificação.

Certo é que os tempos na segunda e terceira sessões ficaram abaixo do Top 10, e na qualificação, foi eliminado na Q1, com o 16º tempo. Na corrida, uma recuperação “morna” foi comprometida pela estratégia de boxes durante um “safety car” virtual, com um erro do piloto.

Austrália

Resultados

Qualificação: 5º (+1 lugar à frente de Russell)

Corrida: 4º (-1 lugar atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 2º (37 pontos)

Hamilton: 5º (28 pontos (-9))

De novo onde se esperava

Os Mercedes qualificaram-se onde era esperado e “herdaram” posições com os abandonos de Sainz e Verstappen. Hamilton teria sido seguramente 3º classificado se a paragem nas boxes de Russell não tivesse coincidido perfeitamente com um “safety car”, permitindo-lhe ganhar posições a Hamilton e a Perez (o mexicano viria depois a deixar os Mercedes para trás).

Emilia Romagna

Resultados

Qualificação: 13º (-2 lugares atrás de Russell)

Sprint race: 14º (-3 lugares atrás de Russell)

Corrida: 13º (-9 lugares atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 4º (49 pontos)

Hamilton: 7º (28 pontos (-21))

O pior fim de semana

Este foi realmente o pior fim de semana do heptacampeão. Os Mercedes foram prejudicados pela chuva na qualificação, mas o facto é que Russell conseguiu ir recuperando lugares na corrida de sprint e no Grande Prémio de domingo. Já Hamilton passou a maior parte do Grande Prémio sem encontrar forma de ultrapassar o Alpine de Pierre Gasly.

Miami

Resultados

Qualificação: 6º (+6 lugares à frente de Russell)

Corrida: 6º (-1 lugar atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 4º (59 pontos)

Hamilton: 6º (36 pontos (-23))

Mais uma vez, o resultado não espelha a realidade

Em Miami como na Austrália, Hamilton foi claramente o mais forte dos Mercedes na qualificação e fez uma corrida sem falhas. Mas Russell foi beneficiado com um “safety car” no momento certo, que lhe permitiu tirar partido da estratégia de um longo “stint” com pneus duros. Para efeitos de análise, a posterior luta direta entre os dois Mercedes foi mais um fait-divers que outra coisa.

Espanha

Resultados

Qualificação: 6º (-2 lugares atrás de Russell)

Corrida: 5º (-2 lugares atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 4º (74 pontos)

Hamilton: 6º (46 pontos (-28))

A prova de força do heptacampeão

A Mercedes trouxe uma evolução (upgrade) para Barcelona, da qual Russell tirou o melhor partido na qualificação. Hamilton envolveu-se num toque com Magnussen na 1ª volta e caiu para último. Porém, a recuperação que se seguiu foi “à moda antiga”, tendo ganho 1 minuto inteiro em pista ao colega de equipa e recuperando até ao 4º, apenas para cair para 5º no final, devido a uma fuga de água.

Esta foi a performance em corrida que mostrou o heptacampeão na sua máxima força!

Mónaco

Resultados

Qualificação: 8º (-2 lugares atrás de Russell)

Corrida: 8º (-3 lugares atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 4º (84 pontos)

Hamilton: 6º (50 pontos (-34))

Mais um daqueles fins de semana

Os ressaltos do asfalto monegasco significaram o regresso do “porpoising”, sem que Hamilton conseguisse fazer a diferença na qualificação. A corrida foi uma sucessão de momentos em que o britânico se viu preso atrás de carros mais lentos sem conseguir ultrapassá-los, como sempre acontece, de resto, no Principado.

Azerbaijão

Resultados

Qualificação:7º (-2 lugares atrás de Russell)

Corrida: 4º (-1 lugar atrás de Russell)

Campeonato

Russell: 4º (99 pontos)

Hamilton: 7º (62 pontos (-37))

Recuperação competente

O défice na qualificação para Russell seria sempre difícil de recuperar. Mas Hamilton não comprometeu, deixando Gasly para trás e assegurando os pontos do 4º lugar – apesar de ter sofrido muito duramente com “porpoising” durante a corrida. Os vídeos “onboard” comprovam-no e justificam as dores de costas que o britânico revelou notoriamente no final.

Toto Wolff em defesa de Hamilton

De acordo com o Racefans.net, num artigo datado do passado dia 11 de junho, Toto Wolff afirmou à imprensa que a diferença de performance de Hamilton para Russell nas últimas corridas (qualificando-se por três vezes consecutivas atrás do jovem) se deve a afinações experimentais que a equipa tem tentado no carro do campeão.

Não há motivos para achar que se trata de uma desculpa. Quando a performance de um piloto fraqueja, mesmo que seja um respeitado multicampeão, a equipa começa a colocá-lo sob pressão. Aconteceu com Schumacher na Mercedes e com Vettel na Ferrari. Quando a Mercedes quiser um substituto, haverá outros candidatos. A resposta de Wolff significa isto mesmo: confiança no seu top driver.

De resto, a abordagem faz todo o sentido. A Mercedes quer vitórias. Dado os regulamentos técnicos atuais, é possível (como sucedeu em Espanha) que a afinação certa “desbloqueie” subitamente potencial no W13 (algo difícil de acontecer em décadas anteriores). E é lógico apostar no piloto mais experiente para correr tais riscos.

O que esperar de Hamilton no resto da temporada

O comportamento de Hamilton neste início de 2022 não indicia propriamente um piloto a perder capacidades. Não existem erros de pilotagem clamorosos, como os que por várias vezes Michael Schumacher cometeu na Mercedes (e especialmente na sua última época, em 2012).

A performance em Barcelona atesta claramente que o piloto mantém o potencial que demonstrou na reta final da temporada de 2021, e que o próprio carro poderá demonstrar também.

É certo que a Fórmula 1 é um desporto em que a capacidade mental e psicológica conta muito, e pode fazer a diferença em busca daqueles dois ou três décimos de segundo por volta que separam a derrota da vitória. Porém, até ao momento, Hamilton também ainda não mostrou estar claramente saturado ou a sentir-se derrotado pelas circunstâncias. Pelo contrário: Espanha e Azerbaijão mostraram um piloto totalmente motivado e empenhado.

É possível que Hamilton venha a recuperar a desvantagem pontual para Russell. Porém, muito vai depender da Mercedes.

O “head-to-head” não é importante para a equipa. Mais: não é importante para o próprio Hamilton, que já não tem mais nada a provar e quer apenas voltar às vitórias. É provável que as experiências de afinações continuem. Se o W13 fizer o “clique” esperado, pode contar-se com um Hamilton na máxima força, como em Barcelona.

Cá estaremos no Odds Scanner para fazer o seguimento!