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Fórmula 1: Guia e odds para o GP da Arábia Saudita

patricia barbosa
Escritor:
Patrícia Barbosa
Publicado em:
31/03/2022
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O campeonato de Fórmula 1 de 2022 já começou, tendo-se disputado no dia 20 de março, o GP Arabia Saudita, no Bahrain, vencido por Charles Leclerc ao volante de um Ferrari. As casas de apostas desportivas e os aficionados dos desportos motorizados já preparam os seus prognósticos para a próxima corrida, que acontecerá no circuito de Jeddah, no GP Arabia Saudita, no próximo domingo, dia 27.

Cada nova temporada de Fórmula 1 pode trazer alterações substanciais à hierarquia teórica entre as equipas. Quando existem alterações profundas aos regulamentos técnicos, como sucede à entrada para esta temporada, a probabilidade de tal acontecer é maior. Daí que fosse difícil calcular probabilidades antes da realização do primeiro Grande Prémio. Agora que carros e pilotos já mostraram as suas capacidades e limites no circuito de Sakhir, é hora de “preparar a próxima”. 

Mas vamos começar por entender o que aconteceu no GP Arabia Saudita, mais concretamente no Bahrain.

Grande Prémio do Bahrain: Como aconteceu?

A qualificação foi uma disputa a dois entre a Ferrari e a Red Bull, com Charles Leclerc a conseguir a pole position por 0,1 s, embora tenha ficado no ar a ideia de que Verstappen poderia ter retirado mais um “extra” do seu Red Bull. Todavia, o holandês tem vindo a queixar-se de que o eixo dianteiro se torna instável tendo o carro pouco peso de gasolina, o que terá contribuído para esta perda da pole. 

A segunda linha da grelha foi preenchida com os colegas de equipa, pela mesma ordem (Sainz e Perez, respetivamente), com Sainz a perder a primeira linha da grelha por apenas 0,006 s! 

Na terceira linha da grelha, Hamilton teve a curiosa companhia do ex-colega Valtteri Botas (Alfa Romeo). O regressado Magnussen (Hass) e o bicampeão Alonso (Alpine) ocuparam a quarta linha, enquanto George Russell no segundo Mercedes e Pierre Gasly (Alpha Tauri) fechavam o “top ten”.

Na largada, Leclerc resistiu ao ataque de Verstappen e segurou a liderança, enquanto mais atrás Perez perdia posições para Hamilton e Magnussen. O dinamarquês da Haas viria, porém, a perder rapidamente posições para Perez e Russell (o jovem britânico em busca de recuperar o “tempo” perdido na qualificação).

Na frente, Leclerc e Verstappen abriam uma distância para Sainz. À décima volta, Perez recuperava o quarto lugar ultrapassando Hamilton, que parou nas boxes para troca de pneus logo em seguida. Os três líderes pararam nas voltas 14 e 15, e no regresso deu-se um dos grandes momentos da tarde, com Verstappen a atacar a liderança de Leclerc e o monegasco a responder leal e firmemente, mantendo a primeira posição.

Verstappen relatou problemas com o motor e acabou por “deixar” uma diferença de quatro segundos para Leclerc antes da segunda ronda de paragens para troca de pneus. Quando esta aconteceu, a maior preocupação de Verstappen já não era Leclerc mas sim Sainz, que atacava o segundo lugar.

A poucas voltas do fim, Verstappen parecia ter a segunda posição assegurada, mas o motor começou definitivamente a falhar e o campeão em título foi forçado a rumar às boxes. Perez acabou por sofrer um problema mecânico semelhante, que o forçou a entrar em pião na primeira curva e a abandonar. A Ferrari garantiu assim a primeira vitória e dobradinha desde 2019, com Sainz a secundar Leclerc. 

Lewis Hamilton herdou o último lugar do pódio, batendo mais um recorde, este pouco conhecido: o de pódios em anos consecutivos.Hamilton obteve pelo menos um pódio em todas as temporadas de Fórmula 1 (16) desde 2007. O inglês superou assim o anterior recorde de Michael Schumacher, que conseguiu pelo menos um pódio na Fórmula 1 todos os anos entre 1992 e 2006.

Como está a performance das equipas?

As sessões de testes de pré-temporada do GP Arabia Saudita dão indicações aproximadas, mas que se podem revelar erradas quando chegam as sessões “a doer” na primeira prova da temporada. 

Nas últimas épocas tem sido habitual, por exemplo, o fenómeno de “sand-bagging” por parte da Mercedes. Este termo, sem tradução direta em português, pode designar-se como “carregar areia”, a Mercedes surgiu sempre mais lenta nos testes do que aquilo que realmente estava.

A prova de Fórmula 1 em Sakhir mostrou que a Ferrari e a Red Bull estão dois passos à frente da concorrência e que a Mercedes se assume como a “última” do trio de equipas que vem disputando as vitórias nos campeonatos desde que começou a era híbrida em 2014. 

Mas não há receio de pensar que a Mercedes esteja “misturada” com o midfield. Hamilton nunca deixou dúvidas de que seria o “vencedor” atrás da Ferrari e Red Bull – não só na corrida, mas também em termos de performance de qualificação. A recuperação de Russell solidifica esta ideia.

Alguns adeptos antecipam uma temporada de Fórmula 1 no GP Arabia Saudita como a de 2012, com favoritos e vencedores diferentes em cada corrida enquanto todos se tentam adaptar a um novo regulamento. Mas não parece provável que tal aconteça. A performance da Mercedes pareceu consistente com o que mostrou nos testes e o trio de equipas da frente é o mesmo desde 2014. 

A diferença, em termos de pelotão, está no facto de as equipas-cliente da Ferrari (Alfa Romeo e Haas) estarem claramente a beneficiar com o motor da escuderia de Maranello, enquanto McLaren, Aston Martin e Williams (as “equipas Mercedes”) enfrentam enormes dificuldades. Este não é um padrão de instabilidade “à la 2012”, mas sim algo que se enquadra no que tem sido a evolução das escuderias nesta era dos motores híbridos na Fórmula 1. 

Como estão os pilotos?

Com as respetivas performances tanto em qualificação como em corrida, Charles Leclerc e Max Verstappen afirmaram-se desde já como os grandes candidatos ao título. Pelos seus resultados nas temporadas anteriores, ambos trazem o estatuto de primeiro piloto nas respetivas equipas, e ambos o confirmaram claramente ao longo de todo o fim de semana no GP Arabia Saudita no Bahrain.

Na Ferrari, Carlos Sainz lutou durante toda a temporada de Fórmula 1 de 2021 para mostrar que não tinha vindo para Maranello para ser um simples segundo piloto. A espaços, conseguiu mostrá-lo, criando fortes expectativas para 2022. Todavia, o ano não começou bem, com Sainz a sentir dificuldades nos testes e a confirmá-las durante todo o fim de semana de Grande Prémio. Apesar de ter tentado ver o “copo meio cheio” ao constatar que até ficou perto do colega (apenas a 0,129 s), não chegou a constituir uma ameaça para a vitória.

Sérgio Perez qualificou-se também “perto” de Max Verstappen (0,240 s), mas o seu estatuto de segundo piloto permanece “estável”, com uma corrida consistente, mas secundária, tendo também sido vitimado por uma falha técnica.

Quanto ao heptacampeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton, acertou no seu próprio prognóstico. Este havia anunciado que a Mercedes estava 0,6s a 0,8s atrás das equipas da frente e ficou, de facto, a 0,7s da pole position. A sua corrida demonstrou estabilidade e consistência a caminho do 5º lugar, sem meios para lutar contra a Ferrari e a Red Bull. Só o descalabro da Red Bull nas voltas finais lhe permitiu “herdar” o último lugar do pódio. 

O fim de semana de Hamilton permitiu-lhe estabelecer uma referência importantíssima. George Russell não constitui uma ameaça, pelo menos para já, ao seu estatuto de primeiro piloto. A estreia do jovem britânico na Mercedes, a iniciar já a 4.ª temporada na Fórmula 1, vinha envolta em grandes expectativas. Russell poderia vir para “bater o pé” a Hamilton de uma forma que Nico Rosberg e Valtteri Bottas não haviam conseguido antes dele. Até agora, não foi o caso. Russell qualificou-se a 1s e 4 lugares atrás de Hamilton e, apesar de ter feito um bom trabalho para se “juntar” ao heptacampeão e deixar para trás os rivais do “midfield”, tem muito trabalho a fazer para conseguir desalojar o colega de equipa do seu estatuto de liderança.

O resto do pelotão

As hipóteses dos restantes 14 pilotos de Fórmula 1 de lutarem por pódios ou por vitórias são, neste momento, escassas. Sem uma hecatombe (e no GP Arabia Saudita, por exemplo, não podemos contar com a imprevisibilidade da chuva…) não é possível esperar que possam lá chegar. 

A Alfa Romeo e a Haas são as principais candidatas, com Bottas e Magnussen respetivamente, tendo em conta que os jovens segundos pilotos (Zhou e Schumacher) ainda estão numa curva de aprendizagem. 

Pierre Gasly (Alpha Tauri) mantém a superioridade sobre o colega Yuki Tsunoda mas luta, por agora, pelos últimos lugares pontuáveis. Tal como Alonso (Alpine), que a caminho dos 41 anos continua a mostrar o caminho a um colega (Ocon) 15 anos mais jovem. 

A McLaren (Norris e Ricciardo) foi uma imensa deceção e na Aston Martin, espera-se para ver o que poderá Vettel fazer após ausência por Covid-19. A qualificação foi mais uma humilhação para Lance Stroll, batido pelo substituto de Vettel, Nico Hulkenberg, que não pilotava um F1 há mais de um ano. 

E na Williams, Albon veio para ser “o” piloto de serviço, enquanto Latifi continua a fazer figura de corpo presente.

Odds para os mercados da corrida saudita

O circuito de Fórmula 1 de Jeddah é diferente do de Sakhir e poderá trazer diferenças na performance relativa das equipas e no resultado. Enquanto Sakhir segue o formato dos circuitos que alternam longas retas com curvas lentas, não sendo predominantes as sequências de curvas longas e rápidas, Jeddah “pede” mais à estabilidade aerodinâmica em alta velocidade e ao apoio lateral. 

É perfeitamente possível que a Red Bull descubra aquele “extra” de performance que lhe permita começar a recuperar pontos em relação à Ferrari. A fiabilidade da Red Bull será, certamente, motivo de preocupação para os apostadores de Fórmula 1 que queiram colocar os seus prognósticos na equipa taurina no GP Arabia Saudita. 

Porém, o histórico recente (olhando à última década) mostra que os problemas de fiabilidade são, em geral, raros e espaçados. As hipóteses de uma equipa como a Red Bull sofrer de um problema grave em duas corridas consecutivas são relativamente baixas. Se tais problemas se continuarem a verificar, isso significará que a Ferrari terá fortíssimas hipóteses de vencer ambos os campeonatos com algumas corridas de antecipação, principalmente aproveitando a margem de superioridade de que dispõe neste começo de temporada.

Vencedor do Grande Prémio

É inevitável colocar os quatro pilotos das duas equipas dominantes em Sakhir (Ferrari e Red Bull) como primeiros candidatos à vitória na Arábia Saudita. Tendo em conta o histórico e o estatuto atual demonstrado na primeira corrida de 2022, Leclerc e Verstappen continuarão a ser os candidatos mais fortes. 

Uma aposta em Carlos Sainz no GP Arabia Saudita não é de desconsiderar, até porque as odds deverão estar um pouco mais altas e uma jogada no espanhol pode revelar-se mais lucrativa. Além disso, há sempre a hipótese de um imprevisto que afaste os seus adversários. Mas Sainz não será a escolha prioritária nem dos apostadores nem das casas. 

No mesmo sentido, Sergio Perez só parece capaz de vencer, neste momento, se uma pequena hecatombe suceder à sua frente. Foi assim, de resto, que ele obteve a sua primeira vitória na Red Bull, em Baku (Azerbaijão), na temporada passada.

Parece difícil que a Mercedes venha a conseguir resolver todos os seus problemas no espaço de apenas uma semana. A própria marca de Stuttgart alertou que precisaria pelo menos de um mês para extrair todo o potencial do novo bólide. 

Assim, apostar em Lewis Hamilton para vencer o Grande Prémio da Arábia Saudita é uma aposta com um risco já algo elevado – tanto como a aposta em Sergio Perez, com ambos aparentemente com dificuldades em lutar pelo pódio sem que algo aconteça aos pilotos à sua frente.

Terminar no pódio

Parece óbvio que o piloto Max Verstappen seja um dos grandes candidatos ao pódio em Jeddah. Um grande ponto de interrogação se coloca quanto à fiabilidade da Red Bull, depois da desilusão grave nas voltas finais no Bahrain. Todavia, continua a ser uma aposta minimamente confiável a fazer neste GP Arabia Saudita, dadas as circunstâncias. Veja-se o currículo recente de Max Verstappen de terminar no pódio todas as corridas em que chega ao fim.

Um imprevisto como o que aconteceu no Bahrain pode trazer Hamilton de novo para o pódio da Fórmula 1, bem como Sergio Perez, de quem se espera já consistência e rapidez para lutar por pódios em todas provas. Como se esperava, Hamilton foi claramente o mais forte atrás das equipas da frente e, em circunstâncias normais, não deverá ser batido pelo colega Russell, que precisará de mais tempo para extrair todo o potencial do carro novo, numa equipa nova para ele.